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MEU PORTUGAL BRASILEIRO

 

A construção deste romance objectiva a articulação do engenho ficcional com o rigor da cientificidade que o enredo inscrito no histórico-factual exige. De facto, José Jorge Letria vincula os universos do Real e do Ficcional com a mestria de quem já fez grandes travessias literárias, patenteando a maturidade comprometida e a capacidade de manusear a Palavra na forja da Sabedoria reflectida, habilidosa e criativa.

O vínculo de ambos os mundos, relacionados estreitamente, é executado por um narrador omnisciente e interventivo a quem cabe o duro papel de fazer a fidelização da factual transferência da Corte Portuguesa para o Brasil, em 1807, recorrendo apenas à memória, deixando o registo escrito para aqueles que foram fadados por Deus e conseguem “dar às palavras um brilho que o falar corrente lhes arrebata” (p.9), dirigindo, desta forma, esse poder a um escritor que se afirma no domínio histórico, usando o romance como instrumento que visa facilitar a compreensão de conteúdos que, pela sua complexidade e distancia no tempo, doutra forma estariam mais arredados da maioria dos leitores.

Interessa acentuar várias linhas de observação que se centram no narrador enquanto sujeito detentor do olhar abrangente, crítico e sagaz, inscrito num contexto social e político em transformação, onde ele próprio se move, sofre, comove, movimentando-se e sobrevivendo nos múltiplos planos onde a condição humana se exprime e resigna, executando a aceitação das mudanças colectivas e pessoais, entendidas como impulso involuntário “escrito no livro do destino”(p.15).

A nomeação narrativa de António Pereira Vicente corporiza e produz no receptor desta obra literária a impressão da realidade e há-de constituir-se, ao longo de todo o enredo, o foco da afectividade que emerge das atitudes e reflexões que efectua no mundo controverso onde se situa, nunca deixando de salientar-se pelo sua capacidade de ser porta-voz da consciência realista, que um livro como este também preconiza.

Essa consciência destaca-se, muitas vezes, no olhar assertivo com que trespassa outras personagens que relata, derrogando tabus comummente instalados nas avaliações superficiais e estereotipadas que sempre se fizeram aos que a vida inscreveu numa visão conceptual marginalizada. “D. Maria, a rainha possuída por uma demência que saltava à vista de qualquer pobre de Cristo” (p.23) não deixa de ser representante do sentimento de um povo “traído, esquecido e abandonado à sua sorte, enquanto a corte se punha a salvo, com muitos padres e bispos à mistura, com um tesouro de oitenta milhões de cruzados”(p.24). Da mesma forma, a problemática da escravatura, moeda de lucro, sofrimento, despudor, “tristeza para a vista e para a alma”(p.117), emerge, neste livro, como um instante comovedor, aproveitado, no entanto, para encetar uma duríssima crítica ao poder político e religioso da época.

De facto, esta personagem, pilar do acto narrativo, sustenta a análise que é feita a uma época marcante da história de Portugal e do Brasil e medeia as posições antisemióticas e antimetafísicas que negam à ficção qualquer possibilidade de realidade e qualquer forma de existência, sendo referência polifónica de uns tantos outros que preconizaram os ideários emergentes da “liberdade, igualdade e fraternidade”(p.112), princípios que guiam e orientam, ainda hoje, a conduta humana na pragmática e espiritual vivência.

O sistemático assinalar das “verdades, que os mais racionalistas diziam ser filhas de um atraso milenar, da bruxaria, da ignorância e do obscurantismo” (p.190), representadas nos conhecimentos esotéricos e intuitivos da escrava Jandira, é representativo do espírito aberto que sublinha e regista diferentes possibilidades de construir realidades que, situando-se na zona de porosidade do possível e do impossível, não deixam, contudo, de confirmar as crenças que tornam, perante o leitor, a demanda do narrador tão verosímil quanto obrigatória.

Assim, este romance fideliza-se à incorporação densa de elementos semânticos da história, como realidade efectiva, mas eleva-se a outros domínios onde a poeticidade discursiva, a ironia retórica, a estratégia pedagógica se destacam e dão conta de um autor amadurecido na mundivivência literária, que lega nesta metaficção historiográfica, um verdadeiro tesouro, onde o real e a ficção se unem na concretização de um objecto estético de enorme qualidade literária.

Teresa Macedo (Universidade do Minho)

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