POEMAS
Podia chamar-te pai, asa de fogo, planta agreste,
alpendre aberto ao feitiço das estrelas.
Podia aninhar-me no casulo do teu abraço
e adormecer com o mistério que alimenta as tuas lendas.
Podia recordar os nomes dos rios e das serras
e das linhas secundárias que cruzam vales e montanhas.
Podia perguntar pelos teus filhos
esquecidos há muito nas errâncias deste mundo.
Podia querer interpretar a tua melancolia
como um sinal de saudade da grandeza perdida.
Podia reabrir, em página incerta, os teus livros raros,
os dos poetas que engrandeceram as título póstumo,
como os heróis, em pátria de carpideiras
e de oficiantes da mais daninha e entranhada inveja.
Podia entrar nas tuas casinhas baixas,
as de granito e as pintadas com a mansa alvura da cal.
Podia afagar-te as barbas brancas
que se tornaram salgadas no fragor das batalhas.
Podia desenterrar os teus mortos
só para saber que sonhos traídos os levaram à cova.
Podia desmascarar os vendilhões que falam em teu nome
como se falassem de negócios reles numa banca de feira,
Podia perguntar-te porque atravessas cabisbaixo
os largos das aldeias desertas e queres saber
o paradeiro dos teus filhos silenciosos e distantes,
daqueles que tomaram outros rumos
com a dor da tua ausência a ferir-lhes o peito.
Podia deitar-me ao teu colo
como se me deitasse na cama de urze
à beira dos promontórios que vigiam as fúrias do mar.
Podia chorar no teu ombro cansado todas as desditas
que foste obrigado a consentir e a calar.
Podia contar aos meus netos os feitos
do Gama, de Magalhães e de Cabral
e desenhar um mapa de glórias navegantes
só para eles saberem que um dia
usaste a efémera coroa de algas dos reinos do mar.
Podia pedir-te e dar-te contas
de tudo aquilo que sonhámos e não alcançámos.
Podia fazer tudo isso e muito mais,
mas prefiro vislumbrar na tristeza dos teus olhos
a ternura com que segues o rasto das aves e das estrelas
e depois abraçar-te e dizer-te: meu querido Portugal,
serás, até ao fim, a luz que não se apaga nem se rende
quando sonhamos com tudo aquilo que ainda te falta ser.
José Jorge Letria
POEMA SOBRE A LIBERDADE
PARA QUE TU, LIBERDADE
Cresci a sonhar contigo, tu sabes,
com a pressa ansiosa dos amantes,
todo os dias, sem descanso ou desalento,
imginando a claridade do teu olhar sereno,
o rumor da tua voz marinha,
o embalo de onda do teu sono de menina.
Um dia chegaste e ergueste a tua casa
na mansa vizinhança dos meus sonhos,
paredes meias com o esplendor dos cravos.
Partilhei contigo o alpendre das estrelas
onde os meus filhos brincaram e cresceram,
onde eu brinquei com os búzios e as sombras
e te prometi fidelidade eterna,
como no fogo das paixões maiores.
Ambos envelhecemos desde então,
dorso arqueado pelo peso
do mais amargo desencanto,
sem renunciarmos à felicidade
que um dia prometemos um ao outro.
Fomos nós que envelhecemos
ou foi a alegria que se exilou do nosso olhar ?
Foi Abril que perdeu o fulgor primordial
ou fomos nós que deixámos de o merecer,
luz fugidia a escapar por entre os dedos ?
Amanhã acordarás numa cama de pétalas,
imitando a límpida música das fontes,
e eu estarei contigo, como quem renasce,
para que tu, Liberdade, não morras nunca
de tristeza ou abandono nos meus sonhos.
José Jorge Letria (Janeiro de 2004)
POEMA SOBRE A GUERRA
ONDE SE ESCREVE PAZ
Convoca as bordadeiras, os tecelões e os ourives
e diz-lhes que não haverá mais bodas
até que volte a pronunciar-se de novo a palavra paz
nos mercados, nas veredas, nas alcovas, nos portais.
Ainda ontem uma mãe sepultou dois filhos
no lugar onde antes era luminosa a flor do riso,
a corola branca dos amores sem mácula.
Depois todos se calaram e vieram as lágrimas,
as súplicas, as unhas cravadas na carne ferida.
E foi a raiva, e foi a dor sem nome, a miséria da alma.
É assim a guerra, disseram. E mais não souberam dizer.
E foram os pais despedir-se dos filhos na neblina dos cais.
Quando se voltava era sempre com um pedaço de vida
a menos, com uma cratera aberta no lugar da voz,
com uma chaga viva no vazio do coração.
Depois vieram os cães e as aves soturnas e negras,
as larvas, os ossos crucificados nos ramos ardidos,
os nomes dos filhos, dos pais, dos irmãos
gravados na pedra exausta de tanta morte.
Sempre foi e será assim a guerra, sentenciavam.
Mas havia meninos que ganhavam asas sobre os escombros
e levitavam como palavras do princípio de tudo
sobre os campos das batalhas que nunca ninguém venceu.
E vieram com eles as borboletas, os duendes e os adivinhos
e desenharam na terra o rosto imaculado da paz
e na areia fina o mapa das viagens em direcção à luz.
E com eles regressaram as bordadeiras, os tecelões e os ourives,
e as casas voltaram a ter o odor dos frutos e da alfazema,
o rumor cantante das fontes e das núpcias.
E foi assim a paz, laboriosa como uma mãe altiva.
Ainda ontem uma mãe assim deu à luz dois filhos
com os nomes dos que outra mãe um dia ali sepultara.
E foi assim a paz, como um rio lavando o ventre da terra.
Agora podes adormecer tranquila, mãe, porque os canhões
encheram a boca de vento e morreram sufocados
como carrascos cegos pelo lume do remorso
e deixaram que deles se soltasse uma música antiga,
capaz de fazer das espadas dos heróis
as guitarras que adoçam a alma eterna e livre das manhãs.
José Jorge Letria (Janeiro de 2007)